A música e sua pseudo-existência

Café Subversivo

Conclui, meio absorto, que a música possui uma especial particularidade: a inata capacidade de não existir.

Acompanhe:

Quando um escultor transforma um bloco de pedra em um linda escultura, exerce o poder da transformação. Ou seja, transforma algo que existe (pedra), em algo totalmente novo (escultura).

Mesmo que ninguém a admire, mesmo que ninguém saiba de sua existência, sua criação, a escultura, passa a existir no momento em que é concebida e sua existência se conservará até que alguma força externa a destrua.

Quando um escritor compõe um poema, este passa a existir tão logo é composto. Mesmo que nunca venha a ser lido por alguém, mesmo que fique entregue às traças nalguma gaveta da vida, continuará a ser poema, ainda que calado e nanico.

Com a música ocorre coisa diversa. Não pode haver música sem som. Todas as formas conhecidas de armazenar ou difundir esta espécie de arte a mantém inanimada, aquém do conceito de existência.

Assim, música, diferindo de todas as demais formas de arte, não passa a existir no momento de sua concepção, e sim, no momento de sua execução. Tão logo finde o som, finda-se com ele o conceito "música" e a peça que era tocada entra em um pseudo estado de existência. Fica no limbo até que alguém novamente a traga a natural existência através da tecla "play" ou surrando um instrumento qualquer.

Diferindo das demais artes, onde a existência é intrínseca - está contida no todo do objeto - a música possui existência extrínseca, ou seja, sua existência está além da peça, pois, a música não pode existir por si mesma.

Nessa ótica o papel do músicos se eleva acima do papel dos demais artistas. O deles consiste em chamar sua arte à existência uma única vez. O daqueles, no entanto, consiste em chamá-la à existência em todos os momentos sob pena de súbita ausência existencial.

Ser músico não significa apenas ser criador, significa ser pai. Imagino, inclusive, que Deus em sua sabedoria infinita nos permita a música para que entendamos um pouco de seu próprio papel no universo.

Como acontece com as harmonias, não existimos por nós mesmos.

No final, nós somos a melodia principal de uma grande peça que Deus criou e vem executando desde o eterno passado...

Dom Will, #461

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Peço desculpa pela descabida confusões de estilo. Este caderno ainda é de poesia. Mas há poema bastante numa boa métrica ensaística...

Quinta-feira, 14 de Julho de 2016

Sobre o Escritor

Dom Will

Poeta contemporâneo, viajante compulsivo compulsório, escritor de aeroporto, leitor de período integral.

Escreve depois que a patroa dorme.

Escreve às quintas.

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