Crônica dos desesperados

Café Subversivo

O #330 é um busão diferente dos demais de sua espécie. Aqui, sobre estes gigantescos pneus é transportado, geralmente, um grupo especial de pessoas. Uma vez que seu trajeto extrema com o CEPON, diariamente no #330, temos a oportunidade de conviver com gente desenganada pela medicina - Os acometidos de câncer.

Quem costumeiramente lê minha produção busística, bem sabe que raramente trato de assuntos sérios. Sempre me "lanço à prosa mordaz", pelos mais cômicos e frívolos acontecimentos. Mas hoje, quis o destino, que escrevesse coisa de diferente tom ou valor. Sem mais delongas, vamos à crônica:

Entrei-me pelas portas verdes que se abriram, como que por mágica, sem que ninguém as tivesse empurrado. Descansei meu traseiro no assento que me melhor aprouve e fiquei a olhar para o infinito por uma destas janelas de vidro que nos oferece a gentil empresa Insular.

Ainda no #461 havia encontrado, por acaso, a turma do "abraço grátis" e na ocasião lhes sugeri que cobrassem dez centavos por amplexo, frisei que poderia ser bastante lucrativo... Me perguntaram o que era "amplexo", então lhes disse que deixassem estar - De graça recebesse de graça dai...

Experimentei ainda o prazer de cruzar com um "homem aranha" totalmente fardado que já beirava seus 17 anos, e, obviamente, causava grande burburinho no busão do primeiro período. Os co-embusados gritavam: - Joga a teia, joga a teia!!! E o nosso herói já estava por revidar: - Joga a mãe, joga a mãe... Coisa que, sem dúvida, valia uma boa narrativa.

O fato é que nenhum desses acontecimentos me foi suficiente marcante para justificar a tinta. O que realmente me chocou nesta viagem foi a senhora chorosa que havia perdido a partida do #330. Arfante, acompanhada de seu filho gritão, entrou corrente e afônica tão logo o busão retornou ao ponto movido pelos gritos ensandecidos de seu filho.

O cobrador tentava acalmá-la: - Não precisa chorar, ele dizia. Ela convulsivamente repetia que não poderia perder sua consulta no CEPON.

Lembrei-me dos quantos outros pacientes encontrei no #330. Lembrei-me do saudoso Lauro Junkes, ex presidente da ACL que me disse em agradável diálogo a seguinte frase: "Will, sou imortal, mas gostaria de ser imorredor. Luto à seis anos contra o câncer" Um dia, para infelicidade de muitos, Lauro errou um golpe e o câncer cruelmente o venceu...

Lembrei-me da anônima velhinha de quem roubei a conversa que teve com uma hipotética amiga. Diálogo cheio de esperança e determinação. Lembrei-me que faz muitas viagens que não mais vejo, ela ou sua amiga loiruda. Senti saudades de suas rugas e chorei por sua ausência.

Lembre-me de minha vizinha, por quem nunca chorei, e percebi que de fato a vida humana não passa de um sopro...

Hoje, por perplexidade, não me lanço à prosa mordaz. Hoje sequer me lanço a nada. Apenas proponho um minuto de silenciosa prosa por todos aqueles que já não podem ter esperança de ver seus filhos formados doutores.

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Dom Will, #330, em tempos já há muito idos...

Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

Sobre o Escritor

Dom Will

Poeta contemporâneo, viajante compulsivo compulsório, escritor de aeroporto, leitor de período integral.

Escreve depois que a patroa dorme.

Escreve às quintas.

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