Saiam do armário

Sexo, Drogas E Rock'n Roll

Os assuntos por vezes surgem de diferentes fontes, como se o universo estivesse a dizer: Escreva sobre isso, fale sobre isso. Numa brincadeira com o poderoso chefão do Mais café, ele tirando sarro de uma de minhas militâncias, sugeriu o tema do armário. No mesmo dia conversando com um colega de trabalho sobre um amigo em comum que descubro ser seu primo, ele diz - Ele era o mais "certo" da família, da igreja, pastor e tal, daí virou do avesso e se assumiu gay.

Ora, o amigo em comum era e na minha opinião continua sendo um ótimo pastor. Eu o conheci antes dele casar e ter uma filha. E eu, nada tenho a dizer em relação a sua postura como pastor. Era do tipo que se preocupava mesmo, do tipo que servia e não queria ser servido. Entendia como ninguém o lava pés ensinado pelo Cristo. Eu passei essa informação para o primo e acrescentei - É uma pena que ele tenha deixado o pastorado, não por ser gay, mas por não poder conciliar as duas coisas. E fui mais além dizendo - Hoje mesmo eu iria tranquilamente em uma igreja com ele sendo pastor (pois nossa única diferença na época da mesma igreja eram nossas linhas de interpretação escatológica, visto ele ser calvinista e eu não).

O mais interessante foi notar a mudança de postura desse primo que não comunga da mesma fé, ao perceber minha aceitação ao outro, pois esperava que eu condenasse o ex pastor. Por sua expressão parece que ele mesmo voltou a aceitar o primo. (espero)

Eu já não estava presente na mesma comunidade, por motivo de ter uma vida agitada, estava em uma época que fazia muitas apresentações de teatro e não podia comparecer com uma freqüência regular para comungar com eles. Foi a última instituição em que de fato eu fiz parte do rol de fiéis.

Não acompanhei o casamento desse pastor com uma das fiéis. Soube de longe que casara e tivera uma filha que por sinal é uma linda criança.A vida passa e alguém me comunica o "escândalo" - Sabia que pastor xxxxxx se separou da esposa, se assumiu e (segundo este alguém)"caiu" da fé? Eu nem respondo ao interlocutor de tal novidade gospel.

Se tem algo que gostam mais do que comer é comentar os escândalos alheios. A preocupação com o cu alheio sempre me irritou. As pessoas das mais diversas crenças me parecem usar o desmerecimento de seus pares aos seus próprios olhos como uma compensação pela sua pequenez de espírito. Eu não preciso menosprezar alguém que seja diferente de mim. Pelo contrário.

Posso irritar com essas palavras aos mais dogmáticos entre os da minha fé, mas, como já citei do próprio livro que eles dizem seguir: "E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado."

Duas opções: Ou muitas vezes mal conhecem ou, repetidamente se aprisionem a uma leitura dogmática e descontextualizada e a ponto de não conseguir interpretar uma simples fala como essa que eu já transcrevi aqui na coluna SDR.

Sendo assim continuo suficientemente seguro pra afirmar a bíblia como meu livro de cabeceira, meu guia de fé e prática e o seu conteúdo o mais maravilhoso de todos os livros que eu já li. Lâmpada para os meus pés e luz para os meus caminhos. Certeza de uma Utopia que acontecerá no Cristo e nos céus. Certeza de um padrão que eu nunca alcançarei, pois falhas e erros eu os conheço em mim melhor do que ninguém. Se alguém me apontar um, eu posso apontar mais dez. Cada dia mais consciente da minha humanidade e muitas vezes da minha desumanidade. Eu não tenho praticado o amor ao próximo. Sou egoísta. Entre outras coisas. Mas esse conhecimento de minhas ditas falhas, de minhas diferenças em relação a meus iguais é que me faz respeitar o modo de ser de cada um.

A igreja para ser definitivamente a igreja de Cristo na terra precisa acabar com essa dicotomia que destaca seus santos por seu modo de comer, vestir, rezar e amar. Ou aceitamos a todos sem transformá-los em cópias de nossos sistemas de pré-concebidos de liturgias e práticas ou toda a nossa hipocrisia se mostrará sempre a quem puder enxergar. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça.

Eu sei que preciso me envolver em atividades para com os órfãos, as viúvas e os necessitados para conseguir usar o manto e o nome de Cristão.

Não sou nem um aprendiz ainda, digamos que preciso sair da teoria. Mas isso não me impede de enxergar esse caos e a falta de sintonia entre as instituições que dizem seguir o livro. Mal o conhecem, e muitas das quais me parecem apenas um clube de iguais, onde parabenizam uns aos outros por fingirem se manter nas doutrinas e dogmas que eles interpretaram a partir do livro. Julgando ser a deles a única e a mais fiel interpretação, sendo assim, os que não são como eles estão todos perdidos e precisam de "salvação".

Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

Sobre o Escritor

Cass Aquino

Jornalista, ator e Palestrante de oficinas sobre comunicação e artes. Bacharel em Comunicação Social Formado em Jornalismo no ano de 2010 pela Universidade do Vale do Itajaí. Foi ator do grupo de teatro de pantomíma Gibbor por mais de 15 anos.

Escreve às sexta.

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