Sócio de Livraria

Café Subversivo

Nestas viagens - as mais longas - sou: metade negócios, metade literatura, metade algoritmos e metade os olhos da menina Almeida. Quantas metades eu sou!? De que importa? Nestas viagens longas eu sou todo metades…

(…)

Caminhava pelos corredores "litero-gastronômicos" da FNAC, atrás dalgum bom livro para saciar minha ontológica sede por obras que não terei tempo para ler.

Tamborilava um Led qualquer nos bolsos próprios. Hora lendo uma resenha, hora resmungando algum título megalomaníaco de auto-ajuda, seguia desleixado por entre as prateleiras abarrotadas de gordices intelectuais caras e apetitosa.

Em minha sessão de torturas auto-infligidas deparei um Vladimir Nabokov que se anunciava por míseros trinta e seis reais e noventa e nove centavos. Não tive dúvidas, catei-o prontamente e guardei entre os braços.

Continuei meu "Caminho de Compostela"… Passei por todas as prateleiras de todos os setores de toda livraria. Nem por um minuto abri mão de meu achado. Até que, de tanto caminhar, resoluto me dirigi ao "check-out". Foi quando metade de mim - os olhos incansáveis de Caroline - gritaram: - Mais um livro, amor? Você ainda nem leu os últimos cem que comprou! O que dizer? Ela, como sempre, estava afundada em razão.

Me sentei em uma poltrona aconchegante ao lado de um garoto ranhento que lia um destes livros que imprimem para meter as crianças no caminho da idiotice desde cedo. Folhei o Nabokov, li as orelhas, li algumas páginas e entrei em uma crise existencial.

Lembrei dos tantos títulos que aguardam nas prateleiras de casa - achei não haver mal algum em dar-lhes companhia. Lolita, ficaria feliz em conhecer seu irmão, pensei… Levantei mais uma vez, me dirigi à prateleira onde tinha encontrado o tesouro e o devolvi relutante.

Macambúzio chamei um taxi e me fui para o hotel comer chocolates e me acabar neste texto.

Deus me fez leitor, mas como o espinho na carne de Paulo, não me fez rico nem sócio de livraria…

=Dom

Quinta-feira, 16 de Março de 2017

Sobre o Escritor

Dom Will

Poeta contemporâneo, viajante compulsivo compulsório, escritor de aeroporto, leitor de período integral.

Escreve depois que a patroa dorme.

Escreve às quintas.

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